A França de Deborah Colker

Todo mês, uma personalidade responde às nossas perguntas e nos conta o que a França representa para ela. Este mês, quem nos dá o seu testemunho é Deborah Colker, diretora e coreografa da Companhia de dança Deborah Colker.

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Quais são os seus laços com a França?

Bom, fiquei amiga de uma “Etoile” da Opera de Paris, Marie-Agnès Gillot, e a minha nora é de família francesa, a Chloé. Há muito e muitos anos eu vou à França. Já fui a várias cidades com a Companhia de dança Deborah Colker, fui dançar e levar o meu trabalho, infelizmente ainda não fui para Paris: fica como um sonho, um laço de sonho.

Ainda sobre os laços com a França, uma pessoa muito importante para mim é o Guy Darmet. Guy Darmet, em Lyon, em 1996, era diretor da Maison de la Danse. Ele fez um ano (dedicado ao) Brasil e levou várias companhias brasileiras, e foi a primeira vez que eu fui a Lyon. Foi um marco muito importante, em 96 eu só tinha dois espetáculos: o Vulcão, que tinha sido a minha estreia, e o Velox, que é esse da parede, e tal. Ele viu os dois ensaios e falou “eu quero levar os dois, mas eu só posso levar um”. Eu falei “você tem que escolher”. Ele falou “junta!”, e eu “não!” foi uma briga, e eu falava “vocês franceses, querem mandar em tudo!”, brincando com ele... Acabou que eu cedi e fiz um espetáculo chamado Mix. Com esse espetáculo, eu ganhei o Laurence Olivier Award, em Londres, no ano de 2001. Esse espetáculo é importantíssimo, a companhia tinha acabado de começar, e estupenda a apresentação. A gente saiu com uma critica do l’Observateur, a revista, e depois disso eu voltei varias vezes. Confesso que eu nunca entendi porque é que a gente ainda não foi para Paris. Temos que ir!

Um lugar imperdível na França?

A França é toda muito linda – lá é muito bom estar na rua: as pontes, as estátuas, passear na rua... Paris é um museu a céu aberto, você tem contato com a história, com a arte, andando na rua, é muito bom isso.

Qual a sua palavra predileta em francês?

Je t’aime!

Qual a personalidade francesa que você prefere?

São varias personalidades francesas, tem Sylvie Guillem, que para mim é a grande bailarina do mundo, mas todas as Etoiles da Opera de Paris, Truffaut, na minha adolescência o Truffaut foi uma influencia importantíssima, eu vi todos os filmes... Ah e tem um autor que é franco-argentino, Joseph Kessel, que escreveu Belle de Jour. Belle de Jour foi o meu ultimo espetáculo, que eu considero o meu melhor espetáculo, que eu dei o nome de Belle. Adaptei o livre Belle de Jour, do Joseph Kessel. Belle é um espetáculo que eu localizo em Paris. Ele tem um cheiro de Paris, ele tem a percepção, a sensibilidade, e isso tudo através do livro. Então, isso para mim é um marco.

Qual o pior defeito e a melhor qualidade dos Franceses?

É difícil falar isso, mas digamos assim: o melhor vinho do mundo, é o maior defeito, não vale! E é a maior qualidade...

Se você tivesse que resumir a França em um livro, uma música ou um filme, qual seria?

Bom, um livro eu já falei, Belle de Jour. Um filme... Meia-noite em Paris, eu adoro esse filme que o Woody Allen fez, merecidamente uma homenagem a uma cidade tão perfeita como Paris. E a musica, Ne me quitte pas, com a Nina Simone cantando. Uma das primeiras coreografias que eu fiz na minha vida foi um solo para um acrobata, ele ia quase tentando se matar, dando mortais e pulos e se tacando, ouvindo essa música, que é arrebatadora.

O gosto da França (especialidades, pratos, sabores…)?

Bom, é a melhor gastronomia do mundo. Difícil pensar na França sem pensar em Paris, mas Lyon, onde a gente se apresentou varias vezes, tem uma gastronomia que dizem ser a melhor do mundo. Os crepes, na rua, os restaurantes com aqueles pratos, onde você come a entrada, depois outro prato, depois o prato principal, depois os queijos, depois o doce, os vinhos que vão se modificando, é quase uma vida, não é?

Alguma historia inesquecível?

Tem uma que aconteceu há pouco tempo, se não me engano foi em 2013 ou 2014, eu estava nessa época remontando um espetáculo meu, o Nó, para a Opéra du Rhin, que é em Mulhouse – alias a cidade é uma graça! – eu ia de trem de Paris para lá. Nesse momento, o Thiago Soares da Royal Opera House de Londres estava montando um espetáculo. Eu queria muito fazer alguma coisa juntos, ai eu pensei em juntar o Thiago e a Marie-Agnès Gillot, que é a Etoile da Opera de Paris. Como eu estava trabalhando em Mulhouse, pertinho de Paris, marcamos um ponto de encontro em Paris, na Opéra. Então, eu nunca me apresentei lá com a companhia, mas eu tinha um camarim com o meu nome: “Deborah Colker”, e tinha uma sala fantástica! Foram dois dias e quase vinte dias depois, mais dois dias. Para mim foi muito especial estar numa casa que é a casa das casas, no teatro dos teatros! A Opéra de Paris é assim: toda vez que eu vou a Paris eu tiro uma foto, junto com Mozart que está ali... são ídolos, é uma casa que é um ícone, não é? É como se fosse a casa do teatro do mundo. O próprio Teatro Municipal (do Rio) é uma copia da Opera de Paris. É muito incrível, muito impressionante, para mim, que sou uma artista, uma coreografa há tantos anos, estar naquele lugar. E de repente eu me vi com um camarim para mim, saindo numa sala, no palco, entrando no teatro, fazendo parte dele. Foi uma historia emocionante.

Como você descreveria a França em três palavras?

Liberté, égalité, fraternité!
(Eu tenho que estudar francês, isso está na lista! É a língua mais linda do mundo!)

No Rio, qual o seu cantinho francês preferido?

A Praça Paris. A sede da companhia é na Gloria, e a Praça Paris é a praia da Gloria. É o lugar de você contemplar, refletir, pensar, se inspirar: Praça Paris!

Para você, o que simboliza o laço entre a França e o Brasil?

Stade de France, 1998: três a zero! Perdemos! É triste, mas é uma memoria engraçada. Perdemos uma Copa do Mundo, na França, para os franceses! Não tem como não ser inesquecível!

publié le 28/03/2017

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