A Fundação Getulio Vargas convida o Cônsul da França para dar uma palestra

O Cônsul geral da França no Rio de Janeiro, Jean-Paul Guihaumé, foi convidado para falar sobre "A importância da língua e da cultura francesas no mundo, hoje e amanhã" na Fundação Getulio Vargas, dia 8 de outubro. Veja abaixo o conteúdo da palestra.

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Senhoras e Senhores, Caros amigos,

É para mim uma honra, estar aqui na Fundação Getúlio Vargas para falar sobre “O lugar da língua e da cultura francesas no mundo, hoje e amanhã”.

Desde que cheguei ao Rio encontrei vários brasileiros falando francês muito bem. Isso me deixou contente e motivado a trabalhar para reforçar ainda mais os laços entre os dois países, especialmente aqui no Rio de Janeiro.

Para começar, podemos lembrar que a primeira Aliança Francesa fora da França foi inaugurada justamente aqui no Rio, em 1885, dois anos depois da criação da sede em Paris.

Tenho realmente a impressão de que somos os herdeiros da missão cultural francesa desde então, construindo uma relação forte, unindo o Brasil e a França através da cultura. Não é à toa que os brasileiros se sentem em casa na França, e que os franceses quando chegam aqui não querem ir embora nunca mais.

Como falar de um tema tão amplo, como “O lugar da língua e da cultura francesas no mundo”? Vou começar pelos esforços que o governo francês faz – qualquer que seja o governo – para promover a língua e a cultura francesas, no mundo todo.

Para lhes dar uma ideia, hoje temos cerca de 6.000 funcionários franceses empregados nos serviços culturais das embaixadas da França pelo mundo.

O outro exemplo, é que dos mais de 300 mil estudantes estrangeiros inscritos em universidades francesas, 25 mil estudam com bolsas dadas pelo governo francês.

Alguns estudantes chegam à França com um nível de francês básico, mas muitos deles já têm uma ligação mais forte com a França, porque estudaram em uma Aliança Francesa ou em uma escola francesa no exterior.

De fato, são 700 mil pessoas inscritas nas Alianças Francesas em todo o mundo, e 500 escolas subvencionadas pelo governo francês, onde estudam 350 mil crianças, das quais 60% não são francesas.

Aqui no Rio, por exemplo, temos o Lycée Molière em Laranjeiras, e um projeto de expansão na Barra da Tijuca. Em São Paulo temos o Lycée Pasteur e em Brasília, o François Mitterrand.

Os alunos saem dessas escolas com um diploma que dá acesso às melhores universidades do mundo. Nas escolas francesas no exterior, estudaram várias personalidades de destaque no mundo das letras, das artes e das ciências.

Graças aos acordos firmados entre faculdades francesas e prefeituras locais, hoje temos também escolas publicas bilíngues franco-brasileiras. Desde 2014, através de um convênio com a Secretaria de Estado da Educação, o CIEP 449 de Niterói tem um acordo com a Academia de Créteil, na França, como parte do projeto “Duplas escolas”.

O projeto prevê um intercâmbio de professores: os brasileiros fazem um estagio na França dando aulas de português, e os franceses passam uma temporada aqui, treinando os professores locais. Com isso, 250 alunos do ensino médio têm por semana 18 horas de aulas de matérias diversas, inteiramente em francês.

Na conclusão do curso, eles prestam um exame e recebem o certificado DELF de proficiência em francês. Graças ao sucesso da iniciativa, a Secretaria de Estado da Educação está preparando um novo projeto, para a criação de escolas primárias bilíngues, seguindo o mesmo modelo.

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Uma das particularidades da ação cultural do governo francês no exterior, é de poder se beneficiar de uma rede de associações locais chamadas Alianças Francesas. Para quem não sabe, as Alianças são iniciativas locais de pessoas que amam a cultura e a língua francesa, e que doam seu tempo e recursos para divulgar, ensinar e fortalecer a cultura francesa no exterior.

Aproveitando a estrutura que já existe, o governo francês apoia as Alianças de várias maneiras. Entre elas, a França disponibiliza recursos financeiros e humanos para as Alianças Francesas pelo mundo.

Além disso, o governo francês apoia a Aliança Francesa de Paris em sua busca para desenvolver novos métodos de aprendizagem da língua francesa. Como vocês bem sabem, os alunos de hoje não querem mais andar com o dicionário debaixo do braço para aprender um novo idioma. Por isso, é importante sempre incluir nas aulas o melhor da tecnologia atual e os eficientes métodos de pedagogia do ensino.

Não sei se vocês conseguem imaginar como é incrível o papel das Alianças francesas. É como ter um grupo de amigos que aceitam trabalhar para você, só porque gostam da sua empresa e querem participar de sua expansão e divulgação.

As Alianças têm cerca de 500 mil alunos, em 132 países. No Brasil, existem 63 filiais da Aliança Francesa, sendo 10 no Rio.

O público brasileiro procura os cursos pelos motivos mais diversos. Em Curitiba, por exemplo, a Aliança faz um grande sucesso oferecendo aulas de culinária em francês, numa cozinha de verdade.

Além de estudar nas Alianças Francesas, como eu mencionei, muitos alunos brasileiros e de outras nacionalidades, que estudam hoje em universidades francesas, passaram por escolas francesas em seus países.

Assim como a rede das Alianças Francesas, a rede das escolas francesas em diversos países é muito importante na diplomacia cultural da França. Mas, diferentemente das Alianças, nas escolas francesas no exterior o governo exerce um papel bem maior. Não quero menosprezar a importância dos patrocinadores privados das escolas, mas sem o apoio do governo francês, a maioria dessas escolas não se sustentaria.

O numero de escolas francesas não para de crescer. Em um momento de dificuldades econômicas e restrições orçamentárias, essa politica a favor das escolas no exterior representa um investimento de mais de 100 milhões de euros por ano (quase 500 milhões de reais).

Mas o retorno é certo: através da educação, a influência da França é fortalecida de baixo para cima. Na classificação anual “Soft Power 30” da revista Forbes, a França ocupa este ano o 2° lugar, atrás do Reino Unido.

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Estamos aqui na FGV, portanto vocês sabem perfeitamente que as politicas públicas devem ter objetivos claros, e que um governo não pode gastar milhões de reais sem esperar resultados.

No caso da diplomacia cultural francesa, nossa particularidade é que a França defende os seus interesses econômicos e políticos, ao mesmo tempo em que divulga os seus valores e a sua cultura.

A postura da França é de fortalecer o seu espaço nos sistemas educativos, e ampliar a sua presença na mídia e na Internet, de modo que o francês seja identificado como uma língua criativa e criadora.

Além de ser a língua da diplomacia, o desafio é de fazer com que o idioma francês continue a ser uma das principais línguas do mundo, participando de negociações e decisões internacionais.

Para isso, foi definido um plano estratégico visando à promoção da língua e da cultura: É importante que as pessoas possam: aprender, se comunicar, e criar em francês.

No campo do ensino superior e da pesquisa, a França ocupa uma posição privilegiada e conquistada ao longo dos anos, no campo das letras, das ciências humanas e sociais e das ciências.

Faculdades francesas fazem parte dos rankings das melhores do mundo, e a França é o segundo país com o maior número de medalhas Fields, o prêmio Nobel da matemática. Aliás, um dos ganhadores, Artur Avila, é franco-brasileiro.

Além disso, a França é o 3° destino preferido pelos estudantes brasileiros, com 4.500 universitários vivendo lá atualmente. As instituições francesas estão sempre abertas a novas parcerias com as melhores faculdades estrangeiras. A Fundação Getúlio Vargas, por exemplo, é um dos maiores canais de intercâmbio, graças às parcerias firmadas com as universidades francesas, como o convênio com a Sorbonne, que existe há mais de 10 anos.

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O segundo desafio da Francofonia é a comunicação. Uma língua só é viva e influente enquanto é utilizada e conhecida nas comunicações internacionais. Através da língua, temos acesso ao diálogo e à troca de ideias entre diferentes culturas.

Cada língua carrega a responsabilidade de preservar sua existência. O Brasil, do seu lado, participa de ações e congressos lusófonos. Entre as línguas latinas, podemos também nos aproximar cada vez mais umas das outras.

Além de aprender e de comunicar, o terceiro desafio da França e dos países francófonos, é que o francês seja visto como uma linguagem criativa, usada para se pensar e reinventar o mundo de amanhã.

Precisamos estar presentes nos lugares onde florescem ideias, imagens, palavras e sons. Isso envolve um trabalho de incentivo às manifestações de literatura, cinema, teatro, dança e artes visuais, de modo que sejam vistos e conhecidos.

A França, primeiro destino turístico do mundo, com mais de 80 milhões de visitantes por ano, investe em sua atratividade cultural, tendo mais de 8.000 museus e 2.000 festivais musicais. A organização de eventos culturais de grande porte, como o festival de cinema de Cannes, as bienais e os eventos esportivos internacionais, são vetores essenciais para a sua visibilidade e o retorno econômico.

Aqui no Brasil, queremos participar de todos os grandes festivais de literatura, cinema, dança, teatro e arte contemporânea.

Na ultima FLIP, a Festa Literária de Paraty, dois autores francófonos - Leila Slimani e Alain Mabanckou – foram os campeões de vendas.

Outro evento de sucesso que tivemos aqui esse ano foi uma série de conferências sobre a censura, que aconteceu na Casa Rui Barbosa, como parte das comemorações pelos 50 anos de Maio de 68.

Não vemos fronteiras entre a cultura e a economia: quando eu falo da importância para a França de participar dos grandes eventos culturais e criativos, é porque isso ajuda também as suas empresas.

Temos um bom exemplo disso na arquitetura: a diplomacia cultural francesa foi particularmente ativa nas duas ultimas décadas na Ásia para apoiar os arquitetos franceses, como também apoiou, no passado, Le Corbusier, que nasceu na Suíça, mas era francês.

Esse mês inclusive, estamos recebendo aqui no Rio um grupo de arquitetos e expositores que vêm participar do Fórum Internacional Niemeyer de Arquitetura, patrocinados pelo governo francês.

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Ainda sobre o desafio de criar em francês, não podemos deixar de falar do cinema. Como vocês sabem, entre todas as artes, o cinema é, provavelmente, o veículo de maior influência cultural no mundo.

Em se tratando do cinema francês, graças aos mecanismos de incentivo público, as produções crescem em numero e em qualidade, com uma média de 80 lançamentos por ano – o mesmo numero de lançamentos norte-americanos, embora com receitas bem menores.

As politicas econômicas que apoiam a indústria cinematográfica tem uma importância crucial para a geração de riquezas na França. A cultura emprega na França cerca de 1 milhão e 300 mil pessoas, ou seja mais de 4% da população ativa do país.

Com mais de 80 bilhões de receitas em euros, a cultura responde por quase 4% do Produto Interno Bruto francês: o dobro da indústria química e 7 vezes mais que o setor automobilístico. Ela é também essencial para as exportações, representando quase 3 bilhões de euros em receitas vindas do exterior.

O setor de videogames, por exemplo, vende 80% da sua produção no exterior, ou seja, 600 milhões de euros por ano.

Num contexto internacional de alta competitividade, sobretudo com a queda de mercados tradicionais e o fortalecimento dos gigantes do mundo digital - os famosos GAFAN (Google, Apple, Facebook, Amazon e Netflix) - a França defende arduamente o respeito aos direitos autorais e à justa concorrência.

Neste contexto, o governo francês resolveu ampliar os mecanismos de incentivo fiscal às filmagens estrangeiras, a fim de tornar o país cada vez mais atrativo para as produções internacionais.

A cada 1€ concedido como renuncia fiscal, 10€ são gastos no próprio país, gerando 2,7€ de receitas fiscais. A conta fecha, e representa uma vantagem para a economia e para os empregos.

Aqui no Rio, a Cinemateca “Cinémaison” do Consulado da França se dedica também à distribuição de filmes franceses legendados em português, para cerca de 1.000 exibidores de todo o Brasil.

Como vocês puderam perceber nos exemplos que eu dei até agora, a língua francesa tem um papel primordial nas ações públicas da diplomacia de influencia da França, também chamada de Soft Power.

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Um setor diferenciado é o de pesquisas cientificas. Como se sabe no mundo acadêmico, os pesquisadores precisam publicar os seus trabalhos, para poderem avançar. Visando a divulgação mundial de suas teses, eles frequentemente as transcrevem em inglês. A França, em sua posição de grande nação científica, reconhece a importância da língua inglesa nessa área. Mas isso não quer dizer que não haja incentivos para as publicações em francês.

Os laços entre a França e o Brasil são históricos, em termos de cooperação científica também. Não vou entrar em detalhes de como tudo aconteceu desde a chegada da Missão Artística Francesa, há 200 anos, com os pintores e estudiosos de diversas áreas que aqui chegaram.

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O fato é que a França sempre valorizou a cooperação no campo das pesquisas, já que os próprios professores precisam sempre continuar a estudar e a aprofundar as suas descobertas, para aprimorar a qualidade de seus ensinamentos.

Além disso, é nos laboratórios de pesquisas que se desenvolvem as inovações e soluções que irão atender às necessidades do mercado.

Hoje em dia, é quase impossível imaginar um centro de pesquisas que não conte com parcerias internacionais. A França e o Brasil se orgulham de ter assinado, há mais de 40 anos, o primeiro acordo bilateral de cooperação cientifica, o CAPES-COFECUB.

A maioria das instituições de pesquisa francesas mantém centros de estudos em diversos países, para que as equipes trabalhem junto aos seus pares estrangeiros. O CNRS (Centro Nacional de Pesquisa Científica da França) tem 250 centros no mundo, 13 deles no Brasil.

Para dar um exemplo recente, foi inaugurado no mês passado o projeto ‘LMI Sentinela’, uma ação conjunta entre a FIOCRUZ, a Universidade de Brasília e o IRD (Instituto francês de Pesquisas para o Desenvolvimento), dedicado a monitorar e analisar dados da área da saúde, em correlação com as condições do meio ambiente.

Este é um passo muito importante, especialmente no momento em que importantes poderes políticos mundiais colocam em dúvida ou negam o impacto das mudanças climáticas. É um dos motivos pelos quais os países economicamente importantes, como a França e o Brasil, devem usar a sua influência junto ao G20 e às outras organizações internacionais, mantendo o multilateralismo e a cooperação internacional.

A França se recusa a apoiar o egoísmo e o confronto entre grandes poderes mundiais. Para isso, a noção de pluralismo é o fio condutor. Se os franceses tanto defendem a sua língua materna, não é só por uma questão de nostalgia ou de clientelismo. É porque o pluralismo faz parte da nossa cultura.

A França não está isolada nessa luta: ela tem o apoio de seus parceiros na União Europeia e conta também com força dos países francófonos. O último relatório da Organização Internacional da Francofonia (OIF) indica que 300 milhões de pessoas no mundo falam francês, e que é o terceiro idioma mais usado nas relações comerciais internacionais. Estatísticas atualizadas serão divulgadas na próxima Cúpula dos Chefes de Estado e governos da Francofonia, que acontece nos dias 11 e 12 de outubro em Erevan, na Armênia.

A cultura e a cooperação francesas são, portanto, canais de influência poderosos, que favorecem a atratividade da França e também dos países francófonos.

O escritor franco-libanês Amin Maalouf descreveu o programa da Francofonia como “Um movimento precursor, em direção ao pluralismo de línguas, culturas e ideias”.

Tenho realmente a sensação de poder contribuir, ainda que modestamente, com a defesa desses valores universais. Num mundo de tantos antagonismos, reconhecer a importância da cultura e da diversidade é um desafio. É com muita honra que eu tenho o prazer de servir ao meu país, lutando por valores em que a França e eu acreditamos.

Muito obrigado pela atenção.

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publié le 18/10/2018

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