Como falar francês (sem falar francês) [crônica]

Se você quer fazer todos acreditarem que aprendeu francês na Sorbonne, anote as dicas a seguir

JPEG

Ao chegar a Paris, meu francês não era grandes coisas, mas mesmo quando não entendia o que falavam, sempre mantive a pose de totalmente fluente, fruto de algumas técnicas que desenvolvi.

É verdade que existem livrinhos de consulta rápida com frases prontas em diversas línguas. Normalmente são divididos por temas, como “chegando à cidade”, “saindo para jantar” ou “pedindo informações”, ótima opção para garantir ao menos uma comunicação básica.

Porém, se você quer fazer todos acreditarem que aprendeu francês na Sorbonne, anote as dicas a seguir. Para ser tão didático quanto o monsieur Gérard, dividi os ensinamentos em capítulos.

Cinq minutes de merde

O que é

A primeira técnica, batizada de Cinq minutes de merde, foi criada por causa de um fato estranho que acontecia comigo. Mesmo que o assunto fosse fácil e as pessoas não falassem muito rápido, eu demorava cinco minutos para dar um boot no meu sistema operacional interno e ajustar o cérebro à conversa. Era como um rádio meio fora da estação, que você pesca algumas palavras, mas não consegue entender o contexto.

O que fazer

Primeiramente, fique com um leve sorriso na cara o tempo todo. Dá um ar de quem está por dentro do assunto. Não exagere, pra não ficar com expressão de idiota. Olhe para quem está falando, mas não muito, pois ele pode te pedir uma opinião. O ideal é balançar um pouco a cabeça e ficar atento às outras pessoas da roda. Se elas rirem, ria também. Se fizerem cara de espanto, coce o queixo.

Quando entender um pouco, solte um "je vois" ou um "oui" de vez em quando. São os equivalentes ao nosso "sei, sei...", que não quer dizer nada, embora diga tudo.

Mas, quando boiar completamente, marque um ponto no horizonte e fixe o olhar. Se te perguntarem alguma coisa, arregale os olhos e repita a seguinte frase: "Pardon, j’étais inattentif". Em bom português, "Desculpa, estava desatento". Porém, NUNCA peça para repetir. É o momento ideal de procurar pelo banheiro.

Faisant des ronds dans l’espace

O que é

É o tradicional circular pelo ambiente. Técnica fundamental, pois ninguém te pega no canto pra tentar desenvolver uma conversa. Se for uma festa, é mais fácil. Numa mesa de bar o problema é maior.

O que fazer

Há duas possibilidades para essa situação: ambientes onde você pode e onde você não pode se locomover.

Na primeira categoria encaixam-se festas, aperitivos, recepções e afins. É moleza se livrar. Basta circular com um copo quase vazio na mão. Quando alguém se aproximar, antecipe o passo e pergunte se ainda tem vinho. A frase-chave é "il y a encore du vin?". Sirva-se e depois dê o sumiço. Claro que você pode trocar por sua bebida preferida. Um rápido guia de referência: cerveja é bière, água é eau e coca é coca mesmo.

A segunda possibilidade é mais complicada e ocorre em jantares, mesas de bar e ocasiões em que todo mundo fica sentado. Torça para ninguém te perguntar nada. Quando houver uma pausa na conversa, lance você um assunto. Aliás, lance e em seguida vá ao banheiro. O banheiro é fundamental em todas as situações descritas aqui. É lá que você vai se refugiar por preciosos minutos. O tempo suficiente para que esqueçam um pouco da sua presença. Mais detalhes sobre lançar um assunto no capítulo seguinte.

En disant des courgettes

O que é

Conhecida em português como "falando abobrinhas", é uma técnica avançada, para aqueles que já têm ao menos uma pequena noção de francês. Consiste em preparar alguns tópicos para usar no momento certo.

O que fazer

Se você souber que vai sair, separe 30 minutos do seu dia para buscar umas palavras no dicionário e organizar um ou dois temas com os quais tenha familiaridade. Uma boa dica é falar de futebol, pois eles não perdem a chance de se vangloriar em cima dos brasileiros e você não precisará dizer muita coisa. Frases fundamentais: "C’est vrai, mais le Brésil est cinq fois champion du monde" (“É verdade, mas o Brasil é cinco vezes campeão do mundo”) e "Pelé a marqué plus de mille buts. Et Zidane?" (“Pelé marcou mais de mil gols. E o Zidane?”). Solte na hora em que você desconfiar que todo mundo está falando das derrotas de 1998 e 2006.

Um outro tema interessante é caipirinha. Os franceses adoram a bebida. Se algum deles não provou, certamente conhece alguém que já o fez e contou maravilhas a respeito. Boa pra soltar ali pelo meio da noite, quando o nível alcoólico das pessoas deverá estar mais elevado. Frases fundamentais: "J’aime bien boire de la caïpirinha sur la plage d’Ipanema" (“Eu adoro tomar caipirinha na praia de Ipanema”) e, se você for do tipo polêmico, solte uma "La caïpirinha, c’est meilleur que le vin" (“A caipirinha é melhor do que o vinho”). Mas aí você vai precisar estar preparado pra responder.

Com essas técnicas, aplicadas nas horas certas, posso garantir que seu francês será elogiado por todos. Quando isso acontecer, faça um ar meio blasé e tenha outra frase na ponta da língua: "Merci beaucoup, mais j’espère que la prochaine fois on parlera en portugais" (“Muito obrigado, mas tomara que da próxima vez a gente converse em português”). E saia.

— 

Crônica de Daniel Cariello, originalmente publicada no livro Chéri à Paris - Um brasileiro na terra do fromage

publié le 30/05/2018

haut de la page