Maio de 68, 50 anos depois…

No mês de maio, o Consulado geral da França e o Instituto Francês do Brasil no Rio de Janeiro, organizaram uma ampla programação para comemorar os 50 anos de Maio de 68.

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Romann Datus, Adido de Cooperação e Ação Cultural, Diretor do Instituto Francês do Brasil no Rio de Janeiro, apresenta a programação dos 50 anos de maio de 1968.

"Maio de 68! Uma data carregada de referencias. Para muitos, Maio de 68 simboliza um momento marcante da Historia recente, quando eclodiram os principais movimentos sociais franceses que resultaram na Maior greve já organizada desde a Frente Popular de 1936. Na verdade, o movimento foi muito além das fronteiras francesas.

Embora algumas pessoas guardem lembranças fortes de Maio de 68, por ter sido o momento em que operários e estudantes se juntaram na França para se manifestar e apresentar suas reinvindicações, em outros países da Europa e no resto do mundo a época traz recordações sombrias e de muita violência, principalmente na Itália e na Alemanha.

A noção da importância de maio de 68 varia segundo o posicionamento da pessoa, dependendo de se ela é a favor ou contra as questões levantadas, e também conforme o seu país, se estamos falando da França, da Alemanha, da Itália, da Republica Tcheca, dos Estados Unidos, do Brasil ou de qualquer outro país. Com toda essa complexidade, a ideia não é só contar detalhadamente o que aconteceu em Maio de 68.

Sem deixarmos de lado os aspectos sociais, econômicos e culturais do que foi Maio de 68 e quais foram as reinvindicações dos estudantes (que condenavam o imperialismo americano, criticavam a sociedade de consumo e as condições precárias de certas universidades, repudiando as normas mais estritas) e dos operários (que apontavam sinais de retração da economia e reivindicavam uma Maior igualdade na distribuição de renda), queremos analisar as consequências daquele mês de maio de 68.

Questionar significa que devemos considerar as grandes transformações que aconteceram de Maio de 68 até hoje, como a melhoria das condições de trabalho, a libertação da sociedade de com relação a conceitos ultrapassados, a liberação sexual, a abertura do dialogo entre professores e alunos, pais e filhos... Quando falamos de Maio de 68, não podemos pensar só na França dos anos 70, temos que considerar o alcance global do acontecimentos e ver o que restou daquela época, ainda que seja para chegarmos à conclusão de que certos problemas continuam existindo, lá a França e aqui no Brasil.

Para começar, sabemos que em 1968 o contexto na França era bem diferente do que acontecia no Brasil com a ditadura militar, a repressão e o decreto do AI5 do dia 13 de dezembro de 1968. O objetivo de promovermos esse intercâmbio de impressões entre a França e o Brasil é de lembrarmos o que representa Maio de 68 em nossos dois países, e principalmente qual o seu legado. Varias atividades estão previstas na França para as comemorações dos 50 anos de Maio de 1968, com o incentivo do presidente Emmanuel Macron. Do lado de cá, as equipes do Consulado geral da França no Rio de Janeiro e do Instituto Francês do Brasil prepararam uma série de atividades comemorativas para o mês de Maio de 2018. "

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Crédito: Philippe Gras

Programação detalhada das comemorações:

"O primeiro evento será um colóquio sobre “A censura à prova do tempo”, dias 3 e 4 de Maio, na Casa Rui Barbosa. Em diversas mesas-redondas, o tema será discutido do ponto de vista da imprensa, do cinema, do teatro e da arte contemporânea, com a participação de pesquisadores, jornalistas, artistas e representantes da sociedade civil. A plateia poderá acompanhar os debates e comparar a maneira como a censura era organizada na França e no Brasil, um assunto que continua atual, 50 anos depois.

Na noite de 4 de Maio, haverá na Sala Cecilia Meireles uma apresentação da Orquestra Sinfônica Cesgranrio, sob a regência do maestro Eder Paolozzi, interpretando canções populares brasileiras e francesas que fizeram sucesso em 1968. A atriz e cantora Soraya Ravenle subirá ao palco e imagens da época serão projetadas no telão. Outros artistas brasileiros darão seus testemunhos sobre Maio de 68 através de vídeos.

O lado musical de Maio de 68 também se fará presente em seu aspecto pedagogico. O Consulado geral da França no Rio de Janeiro e o Instituto Francês do Brasil, com o apoio da Aliança Francesa, organizarão um concurso de canções inspiradas em Maio de 68 e direcionado às escolas francófonas. Os candidatos poderão interpretar músicas famosas da época ou composições novas. Os finalistas se apresentarão na Aliança Francesa da Tijuca, dia 8 de Maio.

A fotografia terá o seu espaço na exposição “No coração de Maio de 68” na Midiateca do Consulado da França, de 2 a 28 de Maio. São 43 fotos tiradas em Maio de 68 pelo francês Philippe Gras, encontradas em seus arquivos após a sua morte em 2007. São imagens que levam os visitantes ao coração de Maio de 68.

Dia 16 de Maio, em parceria com a PUC-Rio, a Midiateca promove o debate “Olhares cruzados entre a França e o Brasil”. Após o debate haverá um coquetel e os participantes serão convidados a visitar a exposição de fotos.

No setor do audiovisual, após o colóquio sobre a censura mencionado acima, serão exibidos dia 7 de Maio no CineMaison vários filmes que causaram polêmica, devido ao conteúdo obviamente contestatório ou ainda por causa de cenas de amor e sexo, que foram consideradas imorais na época. As sessões serão comentadas por Pierre Chaintreuil, chefe da comissão de classificação do CNC (Centre National du Cinéma, na França). Além disso, dia 14 de Maio será exibido um documentário em dois capítulos chamado “Mai 68, un étrange printemps”, dirigido pelo historiador e cineasta Dominique Beaux, apresentando essencialmente testemunhos de pessoas ligadas à politica, representantes de partidos, funcionários públicos e militantes.

Dia 21 de Maio, será a vez de dois filmes franceses que fizeram muito sucesso: Le fonds de l’air est rouge” e “Milou en Mai”. Dia 22 de Maio, teremos “Vincennes, l’Université perdue”, apresentado por Yannick Dehée, fundador da editora Nouveau Monde. Grande estudioso das manifestações de Maio de 1968 e de seus efeitos sobre as editoras e as universidades francesas, Yannick Dehée dará uma conferencia sobre os o impacto de Maio de 68 na França e no Brasil, dia 23 de Maio, no festival MAIO, da Livraria da Travessa.

As comemorações relacionadas a Maio de 68 continuam depois do mês de Maio aqui no Rio, com uma projeção em junho dos filmes de Pierre Clémenti, apresentados por seu filho Balthazar e fazendo uma homenagem à essa figura que foi considerada como a mais incendiária e enigmática do cinema francês pós-Nouvelle Vague. Outro convidado esperado até o fim do ano é o diretor Romain Goupil, que foi muito ativo em Maio de 68 e realizou diversos documentários sobre o assunto.

O Instituto Francês do Brasil e a Aliança Francesa do Rio de Janeiro, juntamente com os parceiros europeus membros da EUNIC Brésil (European Union National Institutes for Culture), estão organizando uma série de encontros com autores e pensadores europeus e brasileiros e sobre Maio de 68, durante a FLUP (Festa Literaria das Periferias), de 25 a 29 de julho.

Os eventos indicados acima são apenas uma mostra de como os acontecimentos de Maio de 68 repercutem e ainda continuam sendo uma fonte de inspiração e de questionamento em diversas areas artísticas e intelectuais, que continuam sendo atuais."

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Crédito: Philippe Gras

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Crédito: Philippe Gras

publié le 03/05/2018

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