Notas sobre março de 1956

Encontramos uma caixa de papelão, cheia de amarelados recortes de jornais da inauguração da nossa Maison de France

A velha caixa de papelão e laço de fita desbotado nos chegou num fim de tarde. Jaziam ali, escondidos no fundo de um armário, notas e artigos publicados pela imprensa sobre as festividades que inauguraram a Maison de France.

Era 21 de março de 1956, o Rio, ainda capital federal, exportava a bossa nova, aceitando a batida do samba, sem no entanto abandonar suas pretensões do chique e erudito parisiense. Nesse cenário, a Maison de France, mais do que uma representação diplomática, seria um centro de difusão da cultura francesa, que animaria a cidade em sua própria Belle Époque. As notas trazem um certo lamento diante da expansão da influência americana, formalizada pela primazia do inglês, e do gradativo abandono do intelectualismo francês. A magnitude da nova casa, porém, sinalizava um novo momento da amizade franco-brasileira.

Não saberia dizer o quanto este espaço foi fundamental para entreter os laços entre ambos os países. Sei que anos depois, JK, que havia proferido um discurso emocionado na ocasião, inauguraria Brasília, traçada por Niemeyer e Lucio Costa sob influência do arquiteto Le Corbusier. Em 1968, Caetano e os Mutantes embalariam a resistência com palavras de ordem do Maio francês. Chico, o carioca símbolo, sairia em turnê europeia e suas canções ganhariam versões francesas. E um sociólogo e futuro presidente sentaria nos bancos da Sorbonne, como vários intelectuais brasileiros refugiados no velho mundo.

Sessenta e dois anos depois, a Maison de France permanece animando a vida cultural carioca. Não clamamos mais a influência francesa, pois talvez o Rio e o Brasil tenham aceitado sua própria trajetória, mas continuamos a promover mais do que as relações bilaterais, intercâmbios sentimentais que alimentam o que talvez seja uma história de amor entre ambas a culturas.

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Texto: Bárbara Gonçalves

publié le 20/04/2018

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