"O Brasil tem os braços abertos para o desconhecido"

Híbridos, projeto dos franceses Vincent Moon e Priscilla Telmon, comemora o sincretismo religioso brasileiro

Em meados do século 20, o fotógrafo francês Pierre Verger veio ao Brasil estudar as diásporas africanas. Logo que chegou, ficou encantado com os cultos religiosos praticados, especialmente o candomblé. Verger fincou bandeira em Salvador, virou Babalawo (sacerdote na religião Iorubá) e com sua Rolleiflex registrou as famosas e icônicas imagens desses ritos e cerimônias religiosas de origem africana.

Passados mais de sessenta anos da visita de Verger, outros dois franceses, Vincent Moon e Priscilla Telmon, também se encantaram (ou foram encantados) pelo sagrado brasileiro. Durante três anos, pesquisaram e registraram cerimônias e expressões da fé por todo o país.

Foram da ayahuasca no Acre às rodas de rapé do Rio Grande do Sul, passaram por procissões, comunidades esotéricas e rituais diversos e estudaram as onipresentes manifestações da espiritualidade no Brasil. Batizaram o projeto de Híbridos, lançaram um site com parte do material, organizaram eventos e sessões de “cinema ao vivo”, com intervenções durante as projeções, e agora estão lançando o longa metragem.

Nesta entrevista, Moon fala do processo de criação de Híbridos, conta o que moveu a dupla a embarcar num projeto tão grandioso e discorda da ideia de que a França não é um país espiritualista: “A França não perdeu sua espiritualidade, ela apenas a está ignorando”.

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Para você, o que é o sagrado?

Nós dois somos parisienses. Crescemos em uma sociedade ocidental, que aos poucos foi impondo limites às expressões do sagrado, principalmente durante os últimos 300 anos. O profano e o sagrado se tornaram uma espécie de tabu em nossa sociedade, apesar das coisas estarem começando a mudar.

Tivemos a sorte de poder viajar e conhecer várias sociedades, com diferentes modos de pensar. Foi principalmente através do pensamento indígena que nós nos reconectamos a uma maneira integral de ver as coisas, através de uma espécie de cosmologia constante, onde tudo é sagrado, tudo vira uma cerimonia. Isso é o que alimenta o nosso jeito de viver, de gravar e fazer filmes.

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Depois de estudar os ritos e as cerimônias brasileiros, de onde vocês acham que veio essa ligação do Brasil com o desconhecido, o inexplicável?

Para mim, o Brasil guarda em seu coração uma imensa riqueza original, com conhecimentos e técnicas espirituais. Apesar de seu avanço e dos aspectos modernos, o país ainda tem uma ligação forte com o mundo invisível, e isso se nota não só nos cultos afro-brasileiros e cerimonias indígenas, mas também em varias outras manifestações, menos conhecidas e divulgadas no exterior.

Os encontros espíritas que acontecem no Brasil, inclusive os tratamentos de cirurgia espiritual, poderiam estar acontecendo na Europa também. Por algum motivo, é como se o velho continente tivesse colocado a espiritualidade de lado, mas as coisas poderiam evoluir para que sejam criados por lá centros espirituais parecidos com os que temos no Brasil.

Para nós, que temos um olhar estrangeiro, justamente neste momento em que o país atravessa uma crise politica e de identidade grave e séria é importante que essa ligação com o invisível não se perca. Esperamos que o Brasil não tenha que ceder a nenhum tipo de pressão que possa afastá-lo de sua poesia. Digo poesia, porque sempre vejo uma ligação ente a arte, a espiritualidade e a poesia, no que se refere ao mundo do invisível.

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Vindo de um país que se destaca por seu lado racional e cartesiano, por que vocês resolveram explorar esse lado do sagrado no Brasil?

Eu vim ao Brasil pela primeira vez há 7 ou 8 anos, e eu não tinha uma ideia pré-concebida. O país me fascinou profundamente em diversos aspectos, principalmente pelo lado místico, que passa a ser por vezes mais importante que todo o resto. Para mim, isso é muito parecido com o amor.

O Brasil é um país cheio de amor, apesar dos próprios brasileiros discordarem e dizerem que o país está “cheio de ódio e violência”. Claro que tem isso também, mas em nenhum outro lugar do mundo encontramos tanto amor quanto no Brasil. O povo é extremamente acolhedor e tem uma energia que faz a gente abrir os braços, como o Cristo no Corcovado, sempre receptivo e aberto para o desconhecido.

Durante minhas primeiras viagens, fiz o meu primeiro filme sobre o sagrado, sobre um ritual de umbanda em Belém do Pará. Aquilo tudo me impressionou muito, foi o meu primeiro contato com a espiritualidade. Priscilla nunca tinha vindo ao Brasil antes, mas sabia um pouco sobre o lado espiritual do Tibet. Então nós resolvemos embarcar nesse projeto e passar um tempo juntos, morando juntos e criando juntos. A terra mais propícia para isso era o Brasil. Acho que nós não nos enganamos.

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Na França, tivemos a época dos druidas, depois foram os alquimistas, sem falar de Alain Kardec. Todos são expressões de misticismo, da busca de respostas além do mundo material. Como e por que você acha que os franceses se afastaram desse lado sobrenatural e esotérico?

Não sei bem por que a cultura francesa hoje em dia passa essa ideia de que é totalmente racional e desconectada da espiritualidade, se bem que eu já não acredito que isso seja verdade. Durante os últimos meses, tive a oportunidade de estudar um pouco mais esse lado desconhecido da França, e lá existem pessoas que têm uma ligação forte com a espiritualidade e também fazem tratamentos espirituais profundos, mas é como se estivessem trabalhando clandestinamente.

Alguns deles foram acusados e sofreram represálias. Nos anos 80 e 90, houve uma verdadeira caça às bruxas na França, um delírio midiático em cima de pequenos grupos. As pessoas eram acusadas de estar fazendo coisas erradas, então passaram a ser mais discretas.

Eu não creio que a França tenha perdido a sua espiritualidade, ela apenas a está ignorando. Nós passamos pelo tumulo de Alain Kardec no Père Lachaise, em Paris, e foi incrível: no meio do maior cemitério da França, há uma pessoa que fala de renascimento e de vida depois da morte, de reencarnação. Ninguém fala de Kardec na França, nem sabe quem ele foi, é como se fosse um mistério. Mas eu acho que as coisas estão mudando, principalmente na Europa ocidental.

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Vocês conheceram outros rituais sagrados, em outros lugares do mundo? Quais as semelhanças e as diferenças, em relação aos praticados no Brasil?

Sim, nós pesquisamos diversos rituais, já faz anos que estamos viajando e estudando o assunto. Vários rituais ou cerimonias sagradas de diferentes lugares do mundo têm aspectos parecidos e recorrentes. Às vezes é apenas a roupagem, a superfície que muda. Existe uma união entre todas essas sociedades. O nosso trabalho é questionar essa possibilidade de união, que para nós é visível. Nós tentamos expor isso através do nosso trabalho cinematográfico, que não tem nada a ver com uma visão politizada do mundo. O meu olhar me faz ver uma ligação em tudo o que se parece. Basta observarmos um ritual de Maloya, na Ilha da Reunião (território francês no Oceano Índico), para vermos que é muito parecido com um culto de Candomblé do Brasil. Tudo é interligado, algumas coisas se repetem e se completam, e essa unidade nos interessa profundamente.

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Em algumas das cenas, temos a impressão de estar participando dos rituais, muito graças à maneira de filmar e à linguagem cinematográfica de Vincent. Vocês só observavam, como cineastas, ou também participavam das cerimônias?

O que eu posso dizer é que nesse trabalho nós tentamos ficar invisíveis como cineastas, assumindo o papel de participantes. Claro que participamos com uma câmera, um microfone e uma vontade enorme de documentar tudo, mas mergulhamos profundamente no assunto, procuramos entrar ao máximo no assunto, seguindo o fio invisível, o ritmo sagrado que tudo permeia. A nossa abordagem não é intelectual, pois entendemos que a “intelectualização” do sagrado afasta a gente, mais do que aproxima.

Apesar de termos lido muito e encontrado diversas pessoas, tentamos não ficar presos nas informações, para podermos mergulhar nos rituais. Quando não se conhece as regras, é mais fácil entrar na roda e fazer parte da dança. De certa forma, é um trabalho semelhante à dança: a dança do nosso corpo junto com outros corpos.

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Como foi o trabalho de síntese das centenas de horas de material de vídeo que vocês recolheram? Que recorte vocês procuraram dar?

Não sei se fizemos um trabalho de síntese. Procuramos criar objetos digitais. O trabalho está à disposição na internet, com direitos autorais livres, sob uma licença "creative commons", que permite que as pessoas o utilizem da maneira que acharem melhor.

Acredito que esse mundo traz uma nova forma de sociedade, que emerge a partir do momento em que temos consciência da ferramenta que temos em mãos. Fizemos muitas gravações e fomos formatando pouco a pouco, sempre respeitando a evolução dos rituais e procurando deixar de lado nosso ego de autor. O ego do artista, o ponto de vista do artista sobre o mundo, está na base de um pensamento sobre a obra de arte. Não estou muito de acordo com isso. Nós procuramos não cair na armadilha de querer interferir demais na mensagem que nos foi passada. Pelo contrário: buscamos encontrar um equilíbrio, tanto quanto possível, para que cada um dos filmes expressasse exatamente o que ele queria expressar. A realização do longa-metragem foi uma verdadeira experiência espiritual: foi extremamente difícil e ao mesmo tempo tínhamos que relaxar. O intelecto se solta, para permitir que alcancemos uma fluidez absoluta, é como se fosse uma grande roda, tudo faz sentido e nos remete à natureza.

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Como será feita a distribuição do filme no Brasil?

O filme entra em cartaz em março, no Rio e em São Paulo, e em outras cidades brasileiras durante o mês de abril. Mas não escolhemos um formato clássico de difusão. Fazemos tudo de maneira bem alternativa. Estamos vendo até que ponto os riscos que tomamos na produção, já que tudo foi autoproduzido, nos permitem ter uma grande liberdade sobre o trabalho final.

Criamos um site, que já está on-line, com cerca de cem filmes. Criamos também eventos e o “cinema ao vivo”, que oferece a possibilidade de reconstruções do filme. Em breve, vamos participar de festivais no mundo todo. Não queremos competir, vamos nos inscrever apenas nas mostras livres. Divulgamos de maneira alternativa. Na França, exibimos o filme em cineclubes. Vamos tentar alcançar pessoas diferentes, para reunir as pessoas de um modo diferente, não pelo lado comercial. Como não fazemos parte do mercado cinematográfico, podemos aproveitar esse aspecto.

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Depois de terem passado 4 anos buscando o invisível e o espiritual no Brasil, talvez vocês tenham a resposta para uma importante questão local: afinal, Deus é brasileiro?

(Risos) Não! Claro que não, ainda bem! Deus está em todos os lugares. Nossa visão da espiritualidade nos faz pensar que o invisível está em todas as partes e se comunica conosco o tempo todo, de diversas maneiras diferentes. Nunca sabemos que cara terá o mensageiro que nos trará a mensagem, temos que ficar atentos aos sinais.

Eu acho que o trabalho espiritual que encontramos no Brasil é feito de diversas formas diferentes. Cada um tem que encontrar o seu próprio caminho para se tornar um pouco mais consciente. É um trabalho feito sobre a consciência. Estamos atravessando um período importante, em que temos todos que revestir nossas sensações e conexões com o que nos rodeira, principalmente com os recados da natureza. De certa forma, o nosso trabalho nesses quatro anos foi como se estivéssemos rezando com as nossas ferramentas de trabalho. Híbridos é um projeto, é um filme, mas é principalmente uma prece, um desejo de conexão.

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Links:
www.facebook.com/hibridosfilm
www.hibridos.cc

Entrevista a Daniel Cariello

publié le 19/04/2018

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