Sala lotada na homenagem a Pierre Barouh no Cinemaison

O Cinemaison e a Casa do Choro prestaram uma emocionante homenagem a Pierre Barouh, dia 11 de abril de 2017. Mauricio Carrilho compôs especialmente para esta ocasião a musica "Maxixe Barouh", homenageando o grande personagem da musica francesa, brasileira (e japonesa). As partituras da musica foram entregues a Jean-François e Jeanne-Yvonne Sabouret, grandes amigos de Pierre Barouh, que vieram da França especialmente para participar da homenagem.

O evento

O evento começou com a projeção de um curta-metragem filmado em junho de 2011 pelo diretor francês Vincent Moon, um documentário intimista no qual Pierre Barouh cantarola várias de suas musicas e conta sua historia. Em seguida, foi apresentado um trecho do programa "Lá" dirigido por Marcio Da Rocha e exibido no Canal Brasil, com imagens emocionantes de Pierre Barouh cantando "Corcovado" de Antônio Carlos Jobim com sua filha Maïa Barouh e o cantor brasileiro Orlando Morais, e no qual Pierre Barouh conta como conheceu Baden Powell e Vinicius de Moraes.

O evento continuou com a projeção de trechos do filme "SARAVAH Brasil!" de Pierre Barouh, no qual vemos os jovenzinhos Maria Bethânia e Paulinho da Viola no inicio da carreira. Para completar, a Casa do Choro coroou a noite apresentando a musica "Maxixe Barouh" composta por Mauricio Carrilho em homenagem a Pierre Barouh. As partituras da musica foram entregues a Jean-François e Jeanne-Yvonne Sabouret, grandes amigos de Pierre Barouh, que vieram da França especialmente para a ocasião.

Em 2012, o Cinemaison já havía prestado uma homenagem a Pierre Barouh, em sua presença, com a projeção de dois de seus filmes (ver anexo). Ele participou, na mesma época, de um show em homenagem a Baden Powell, organizado por seus dois filhos no Rio de Janeiro (ver link). Ele retornou ao Brasil em 2014 para as filmagens de OBA OBA OBA, com Vincent Moon e Benjamin Rassat (ver link).

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A historia do Pierre Barouh (1934 – 2016)

Morto no dia 28 de dezembro de 2016 aos 82 anos, Pierre Barouh será para sempre um personagem boêmio, com uma carreira muito diversificada e às vezes improvisada: autor, compositor, intérprete, ator, diretor, produtor... Nascido em 1934, Elie Barouh passou a Segunda Guerra mundial morando na casa de um camponês na região da Vendée, onde seus pais o esconderam – e passaram a chamá-lo de Pierre. Quando ele voltou para Paris, aos 15 anos, entrou numa sala de cinema ao lado da casa de seus pais. O filme na tela era Les Visiteurs du soir (Os visitantes da noite) de Marcel Carné. Foi uma revelação para o adolescente. A partir de então ele começou a ler, escrever, e principalmente, decidiu sair do colégio. Trabalhou como jornalista esportivo e internacional cobrindo torneios de vôlei, e depois resolveu abandonar tudo para viajar, até a idade de 30 anos.

A profissão que constava em seu primeiro passaporte era: “passeador”. Seus caminhos o levaram a Portugal, na época da ditadura de Salazar, e lá ele conheceu a Bossa Nova, importada pela comunidade brasileira. De Lisboa, ele embarcou num cargueiro rumo ao Rio de Janeiro, onde pretendia encontrar Tom Jobim, Vinícius de Moraes e a turma toda. Não deu em nada. Então ele aproveitou para traduzir uma musica brasileira para o francês, A noite do meu bem de Dolores Duran, que se tornou La Nuit de mon amour. De volta à Saint-Germain-des-Prés, frequentando os bares de jazz, Pierre Barouh cantou essa versão para uns amigos. Na mesa vizinha, um grupo de brasileiros ficou surpreso de ver aquele francês tão apaixonado pela música brasileira, e o convidaram para esticar a noite no apartamento deles. Lá estavam Vinícius de Moraes e Baden Powell.

O passeador era um belo homem, e entre uma viagem e outra, o cinema voltou a seduzi-lo. Claude Lelouch estava preparando o filme Un homme et une femme (Um homem, uma mulher) e o convidou para um papel. Enquanto esperava o inicio das filmagens, Barouh voltou para o Brasil, onde foi encontrar o seu amigo Baden Powell. Até o dia que um telegrama de Lelouch o convocou a voltar para a França: as filmagens já haviam começado, com Anouk Aimée e Jean-Louis Trintignant. Na véspera de seu voo, Pierre Barouh traduziu para o francês o Samba da Bênção, letra de Vinícius e musica de Baden Powell, que virou o Samba Saravah no filme Um homem, uma mulher. O que aconteceu depois nós já sabemos: o casamento com Anouk Aimée, a Palma de Ouro de 1966 em Cannes, o Oscar de melhor filme estrangeiro e um Globo de Ouro pela musica tema, que levou a assinatura de Francis Lai e Pierre Barouh, aquela que diz “shabadabada, shabadabada”. A trilha sonora se tornou um sucesso, mas ninguém queria produzir o disco. O projeto
corria o risco de não ir adiante, então Pierre Barouh teve a ideia de assumir a gravação da musica. Foi assim que surgiu o selo Saravah.

A gravadora Saravah, com o slogan “tem anos que a gente tem vontade de não fazer nada”, produziu vários grandes artistas da musica francesa (Brigitte Fontaine, Areski Belkacem, Jacques Higelin, Jean-Roger Caussimon) e do jazz (os cinco primeiros álbuns europeus de Steve Lacy), além de percorrer também o território das musicas do mundo, com Pierre Akendengue e Naná Vasconcelos. Um catálogo realmente apaixonante, indo do rock à musica experimental, e de uma longevidade impressionante, sendo o mais antigo selo francês ainda ativo.

De volta ao Rio em 1969, Pierre Barouh filmou durante três dias com o compositor Pixinguinha, que tinha na época 80 anos, e com Maria Bethânia e Paulinho da Viola, ainda jovenzinhos. O maravilhoso documentário Saravah é uma referencia absoluta para qualquer amador da musica brasileira — inclusive no Brasil. Preocupado em escolher palavras simples para descrever sentimentos complexos, Pierre Barouh compôs lindas canções como Des ronds dans l’eau (Círculos na agua) para Françoise Hardy em 1967 e La Bicyclette (A Bicicleta) para Yves Montand em 1969. Ele também publicou uma dúzia de álbuns, sempre se renovando através do contato com outras culturas, como a do Japão, país que ele visitou várias vezes durante mais de trinta anos, e com o qual ele mantinha laços artísticos e familiais.

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Citações

“Num único filme (Saravah), Barouh conseguiu documentar o passado clássico da música brasileira, com Pixinguinha e João da Baiana, registrar o presente com Baden Powell, e prever o futuro, com Maria Bethânia e Paulinho da Viola. A câmera dirigida por Barouh se move entre os personagens, como se fizesse carinho neles, como se os beijasse.”
Hugo Sukman (entrevista para O Globo – dezembro 2016)

“Pierre Barouh é a única pessoa de quem eu já aceitei conselhos. Sua maneira de ver o mundo é onipresente na maioria de
seus filmes.” Claude Lelouch

publié le 13/04/2017

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